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Os Chicletes das Calçadas

Nunca me agradou caminhar junto às multidões. Todos, apressados, sempre pareciam me querer pisotear. E eu andava sempre curto, examinando o solo, e com frequência suspendendo os olhos para ver o horizonte.
Estas calçadas do Centro de São Paulo... Ai, ai! Como me irritavam tantos chicletes podres pregados nelas, que, antigamente, até consigo imaginar, deviam ser bonitas, limpas, quadriculadas, com os infinitos perímetros do Estado sendo o tapete persa de todos os milhões de indigentes que passam por aqui diariamente.
Às vezes, caminhando por lá, um chiclete ou outro mais recente quase sempre me deixava mancando por um tempo. Aí eu parava em um lugar mais calmo e tirava ele da sola.
Com certeza nunca vou me esquecer daquele dia. O sol torrava o chão e torcia pescoços e sovacos. Algumas gomas pareciam borbulhar. Era incômodo estar junto daquele rebanho de elefantes. Palmilhando por lá, pisei num chiclete fresquinho, bem na borda da calçada. Era tão gosmento e gigantesco que eu me deseq…
(A Letícia Tamires)

Não estou triste, mas sinto que o tempo nos apaga.
Por que então falar de amor se ele acaba?
Eu quero mudar. Quero pôr de novo sua íris em fogo:
Fogo negro do prazer da alma, do corpo,
Da cama que range como máquina, do céu que se apaga à noite.
Hoje eu saí pra rua.
Sei que saio sempre; hoje, porém, notei que tudo estava igual.
Vi um sedan silencioso cruzar a estrada quente,
O povo passando com pesar no rosto, no chão cuspindo os sonhos
que logo evanesciam; alguns chispando, chateados, dura desilusão.
Você deve ter também mudado, mas permanecido igual.
Tal qual livro abandonado na prateleira, sofrendo lento amarelamento
Sutil e contínuo. Pelas palavras ditas duras, porcamente proferidas
Antes da despedida à porta do apartamento, resta o suspiro do perdão
Que peço. Não morra, não míngue em transe.
Transe com o universo, que sempre se dilata ao som do seu riso.
E caminhe com o…

Fones de ouvido

Uma mania que eu então tinha era a de andar com os fones de ouvido pendurado nas orelhas. Não me lembro bem das músicas, faz muito tempo. Eu morava com meu filhinho recém nascido, o Bernardo.  Sua mãe morreu no parto, e eu entrei em depressão, mas cuidava do menino sem ajuda. Demorava às vezes, confesso, pra perceber o choro do garoto por causa do som alto. Só descobria quando escutava um ruidinho anormal ao fundo da música. Sempre dormia com o negócio nas orelhas, no volume máximo; porém acontecia de o fone escorregar e eu ouvir o berro do Bernardo. Aconteceu isso uma noite. Acordei e sentei de repente na cama, de olhos bem abertos, assustado. Minhas têmporas latejavam e a única causa que encontrei na hora era o moleque. Fiquei ali sentado ouvindo os rugidos por alguns segundos, como se esperasse os pensamentos se porem a postos para dar algum comando ao corpo. Tentei engolir saliva, mas não tinha, e isso alimentou o minha raiva. Eu tinha uma caixa de fones de ouvido ao lado da cama, porq…

Matemática

-Josileide, filha, outra vez!? -Mãe. . . -Nem mãe, nem meia-mãe. Minha-Nossa-Senhora! Se você me vier com outra nota dessas em matemática teu pai vai ficar muito bravo, você sabe disso!      A menina não esperou sua mãe terminar, entrou no quarto e bateu a porta. Lá dentro, em seu frágil refúgio, mergulhada numa tristeza com a qual não atino por completo o motivo, chorou. Dormiu depois .      De manhãzinha, o sono ainda não tinha cedido; sobre os olhos ainda pairava o peso do céu noturno. Ela se levantou e foi para a escola sem nem tomar café. Andava avoada, olhando para o chão, sem perceber os passantes. Pensava no pai, com temor. Ele sempre lhe dava tapas quando estava nervoso. Ela o temia muito. Preferiria qualquer coisa a ser tocada por ele.      Na Escola, foi direto para a sua sala e sentou-se num lugar não usual. Bastante no canto. Não falou com ninguém naquela manhã. Suas colegas estranharam muito.      -O que ela tem? Passou e nem olhou pra mim.      Encaravam Josileide como se ela …

Imigrante

A Danilo Malabarito
Transbordou o meu copo de chá; De chuvas de chagas negras; De negras chagas podres; De fel salgado, de enxofre. Tudo é noite debaixo do sol. Minha roupa está sempre molhada De suor e lama, e eu caxingo Amedrontado pelas ruas da cidade.
Olho em volta e tudo é ódio. . . Saudade de ti, minha Bahia amada, Onde canta o bem-te-vi Toda alvorada.
Mas estás longe, irreal Fiji. No horizonte perdem-se meus olhos A procurá-la. Bela Feira tão longínqua De tuas terras uterinas brotei.
O sal da lágrima pesada que caiu Com o aleijado do Lacerda E transbordou-me o chá Feito de tuas ervas, Bahia,
Veio de tuas santas praias. Agora estou perdido, na cidade, Onde emaranhados de humanos De vidas cruelmente corrompidas
Aplaudem a si mesmos Numa macabra liturgia. E nós, os escravos, filhos Da Bahia, gememos.
Exprimimos sons metafísicos Do desespero vindos do fundo Da nossa alma, que se converteu Numa fossa funda e seca.
É na constante alegria sarcástica E ligeira que somos conduzidos. Ze…

Nostalgia

Negrinhos e mulatos magrelos
Sem camisa, jogando bola
E empinando pipa.
Descalços nos matos conhecidos
Pelos desconhecidos passos sujos;
Ouvindo e caçando pássaros
E estilingando
Largatixas nos muros.

São lembranças de um ontem
tão distante;
Quando as tardes não eram tristes
e eu tão bruto.
Resta-me guardar
Num garbo relicário
e nesses traços
As imagens sublimes do passado.

Máquinas de pedra

a paz do espírito
se esvai com vidas
vãs, dilaceradas.
irmão vulnerável,
esquive, avance e não vacile
pois a plenitude da felicidade
na urbe se esvai como
um fio tênue de azeite
pelo vão entre seus dedos esfolados;
vaza como intrusões magmáticas
na epiderme negra de Deus.
corações ígneos plutônicos,
solidificados antes de concebidos
pelos ventres vazios
cheios d'uma esperança
que não consigo enxergar
vagam sobre a natureza pedregosa
ignorando as próprias naturezas
e as das coisas que um dia
encantaram
e não ouvem as vozes humanas
saindo de bueiros entupidos.
se no meio do caminho havia
uma pedra?
a pedra tornou-se o próprio
peito pétreo hipotético,
triste bombeador de óleo.